Detectar varicocele cedo evita problemas reprodutivos
Varizes aparecem em mais de 25% dos adolescentes, por volta dos 15 anos
Herton Escobar
Um em cada quatro adolescentes sofre de uma doença assintomática, quase
imperceptível, mas que pode comprometer sua capacidade reprodutiva no futuro. O
problema chama-se varicocele, ou varizes no escroto - um termo pouco agradável,
que dificilmente faz parte das preocupações de qualquer garoto na puberdade.
Assim como as meninas nessa fase passam a visitar rotineiramente um
ginecologista, entretanto, a saúde reprodutiva do homem também merece
acompanhamento médico desde cedo, dizem os urologistas.
"Da mesma forma que a mãe leva a filha ao ginecologista depois que ela menstrua pela primeira vez, o pai deveria levar o filho ao
urologista", diz o médico Agnaldo Cedenho, chefe
do Setor de Reprodução Humana da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A varicocele não é a única razão para isso, mas é
a mais óbvia. O diagnóstico é simples e pode ser feito com um exame visual, até
mesmo por um médico de família.
O problema aparece por volta dos 15 anos. Mas, como não causa dor, costuma
passar totalmente despercebido. A grande maioria dos homens só vai perceber que
há algo errado depois de casado, quando surgem
problemas de fertilidade. Nesse ponto, um problema simples, que poderia ter
sido resolvido na juventude, passa a representar uma barreira reprodutiva, cuja
transposição pode trazer um alto custo financeiro e emocional.
Cerca de 30% dos homens que procuram uma clínica de reprodução humana sofrem de
varicocele, segundo Cedenho. E, em quase todos os
casos, o problema poderia ter sido detectado - e corrigido - na adolescência.
"O ideal é que todo pai leve seu filho a um urologista a partir dos 14 ou
15 anos pelo menos uma vez por ano", recomenda o médico Jorge Hallak, coordenador técnico-científico do Centro de
Reprodução Humana do Hospital das Clínicas.
Um estudo realizado com 360 adolescentes na faixa dos 14 aos 18 anos,
estudantes do Senai de São Paulo, mostrou que 27,8% tinham varicocele de grau
mais elevado (2 ou 3). "A freqüência foi surpreendente", diz o
urologista Marcos Mori, que fez a pesquisa para sua
tese de doutorado na Unifesp. "A maior parte é
totalmente assintomática." Só 5% dos jovens, segundo ele, reclamavam de
dor ou desconforto.
Jossan Eduardo da Silva, hoje com 24 anos, foi um dos
que participaram da pesquisa logo no início, quando estudava eletrônica no
Senai. Ele não sentia nada de errado nem tinha, jamais, ouvido falar de
varicocele. Detectado o problema, fez um espermograma
e descobriu que a saúde de seus espermatozóides não estava boa. Fez uma microcirurgia no Hospital São Paulo e, hoje, seu espermograma está normal. "Se não fosse esse exame no
Senai, certamente eu não saberia de nada", diz. "Homem não tem
costume de procurar urologista. Acho até que tem um certo
preconceito."
Fábio, de 22 anos, também nunca sentiu dores, mas percebeu um certo inchaço no
testículo esquerdo e resolveu procurar um médico. Descobriu também que tinha
varicocele e que seus espermatozóides estavam seriamente comprometidos, tanto
em quantidade quanto qualidade. Fez a cirurgia dois
meses atrás e agora aguarda pelos resultados do próximo espermograma.
"Nunca tinha ouvido falar em varicocele", diz. "Não fazia a
mínima idéia do que era."
O comprometimento da capacidade reprodutiva ocorre pelo acúmulo de sangue em
volta do testículo, o que eleva a temperatura dentro do saco escrotal e
prejudica o processo celular de formação de espermatozóides. As varizes podem
aparecer nos dois testículos, mas são mais comuns no lado esquerdo, devido a
uma característica anatômica.
A veia testicular esquerda desemboca em um ângulo reto na veia renal esquerda,
onde a pressão sanguínea é extremamente alta. Conseqüentemente, o sangue que
deveria subir é pressionado para baixo, causando dilatação e acúmulo de sangue
nos vasos testiculares. "É como se fosse um motorista numa ruela tentando
entrar na Avenida Paulista às 6 da tarde", compara Hallak.
Não só ele pode não conseguir entrar na avenida, como uma fila de carros começa
a se formar atrás dele na ruela.
Já a veia testicular direita desemboca sem maiores dificuldades na veia cava
inferior: "uma via expressa de oito pistas", segundo Hallak.
CASO A CASO
Quando o engarrafamento de sangue no testículo começa a comprometer a
fertilidade, a solução é fazer uma ligadura dos vasos. Segundo Cedenho, é uma cirurgia rápida e minimamente invasiva. "Você opera de manhã e sai à tarde com o
problema resolvido", diz.
Nos casos mais graves, a qualidade do esperma pode ser 75% inferior à de um
indivíduo normal. Nem todos os casos, porém, requerem cirurgia. Se o homem já
tiver uma fertilidade inicial boa, é possível conviver com a varicocele sem
comprometimento da capacidade reprodutora. Se a fertilidade inicial for baixa,
entretanto, mesmo uma varicocele de menor grau pode se tornar um problema
grave. A avaliação tem de ser feita caso a caso.
"Varicocele não é sentença de infertilidade", garante Mori. Em média, segundo ele, só um entre cada cinco casos
precisa de tratamento.
A preocupação é que o problema se agrava com o tempo. Quanto mais tarde for o
diagnóstico, menor a capacidade de recuperação da fertilidade. "Como a
tendência atual é ter filhos mais tarde, o paciente acaba se beneficiando pouco
do tratamento e tendo de recorrer à reprodução assistida", diz Mori.
Outros problemas que podem ser detectados pelo urologista incluem câncer de
testículo e má-formação genital.
Fonte O Estado de São Paulo